Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

uma questão pessoal

Não sou nada como Borges. Acho que Borges é um escritor muito limitado - estou a pensar na prosa. Muito limitado. E era cego, claro. Eu não sou cego. Faz uma grande diferença, porque o homem cego vive internamente, enquanto eu sempre vivi com o mundo que vejo, que conheço.
V. S. Naipaul
no Público de hoje



Há afirmações que me atingem como insultos pessoais. Porque parte da pessoa que eu sou são todas as pessoas que me fizeram ser o que sou. Donde, não admito que um atrasado mental qualquer não se enxergue ao ponto de afirmar duas bestialidade desta grandeza, com a sobranceria típica dos imbecis: apelidar a prosa de Borges de limitada está para a estupidez humana quanto a parte para um todo (o da estupidez em si); estabelecer uma diferença de qualidade e de vivência num escritor na capacidade, física, da visão ou na ausência dela está para a superficialidade humana quanto o todo para uma das suas partes (a de considerar uma deficiência física, como a cegueira, equivalente a uma limitação intelectual e vivencial).

Sr Naipaul, o que o senhor vê e conhece do mundo é, verifica-se nas suas palavras, muito pouco. É o quase nada que lhe deu direito à existência física, mas não à moral, intelectual ou cultural. Borges viu e sempre viu muito, mas muito mais, com os seus olhos cegos, do que o senhor com os seus olhos rasgados pela perfídia e pela tacanhez. O conhecimento que Borges tinha do mundo, sr. Naipaul, do qual partilho uma pequena parte - aquela que os escritos dele me transmitiram -, é tão esmagador perante a sua própria pequenez que desejo, mas desejo mesmo, que o senhor venha a arder nas chamas do Inferno, contrariamente a Borges que esse, além de percorrer os céus, teve a sabedoria de perceber que somos todos um sonho que um outro nos sonha.

Que a biografia oficial por si autorizada e após publicação afinal já não autorizada por si, seja um tal êxito de vendas que ateste a todos a sua fraqueza enquanto indivíduo e a sua menoridade enquanto escritor.



AS RUÍNAS CIRCULARES

And he left off dreaming about you...
Through the Looking-Glass, VI.


Ninguém o viu desembarcar na noite unânime, ninguém viu a canoa de bambu sumir-se no lodo sagrado, mas dentro de poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que a sua pátria era uma das infinitas aldeias que estão águas acima, no flanco violento da montanha, onde o idioma zenda não se contaminou de grego e onde a lepra é frequente. O certo é que o homem cinza beijou o lodo, subiu as encostas da ribeira sem afastar (provavelmente, sem sentir) as espadanas que lhe dilaceravam as carnes e arrastou-se, mareado e ensanguentado, até o recinto circular que coroa um tigre ou cavalo de pedra, que teve certa vez a cor do fogo e agora a da cinza. Esse círculo é um templo que os incêndios antigos devoraram, que a selva palúdica profanou e cujo deus não recebe honras dos homens. O forasteiro estendeu-se sob o pedestal. O Sol alto despertou-o. Comprovou sem assombro que as feridas tinham cicatrizado; fechou os olhos pálidos e dormiu, não por fraqueza da carne, mas por determinação da vontade. Sabia que esse templo era o lugar que o seu invencível propósito postulava; sabia que as árvores incessantes não tinham conseguido estrangular, rio abaixo, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que a sua imediata obrigação era o sonho. Por volta da meia-noite, despertou-o o grito inconsolável de um pássaro. Rastros de pés descalços, alguns figos e um cântaro advertiram-no de que os homens da região haviam espiado respeitosos o seu sonho e lhe solicitavam o cuidado ou lhe temiam a mágica. Sentiu o frio do medo, e na muralha delapidada buscou um nicho sepulcral e tapou-se com folhas desconhecidas.

O objectivo que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse projecto mágico esgotara todo o espaço da sua alma: se alguém lhe perguntasse o próprio nome ou qualquer traço da sua vida anterior, não teria acertado na resposta. Convinha-lhe o templo inabitado e derruído, porque era um mínimo do mundo visível; a vizinhança dos lavradores também, porque estes se encarregavam de suprir as suas necessidades frugais. O arroz e as frutas do seu tributo eram pasto suficiente para o seu corpo, consagrado à única tarefa de dormir e sonhar.

No começo, eram caóticos os sonhos: pouco depois, foram de natureza dialéctica. O forasteiro sonhava-se no centro de um anfiteatro circular que era de certo modo o templo incendiado: nuvens de alunos taciturnos fatigavam os degraus; os rostos dos alunos pendiam há muitos séculos de distância e a uma altura estelar, mas eram absolutamente precisos. O homem ditava-lhes lições de Anatomia, de Cosmografia, de magia: as fisionomias concentravam-se ávidas e procuravam responder com entendimento, como se adivinhassem a importância daquele exame, que redimiria em cada um a condição da vã aparência e o interpolaria no mundo real. O homem, no sonho e na vigília, considerava as respostas dos seus fantasmas, não se deixava iludir pelos impostores, previa em certas perplexidades uma inteligência crescente. Buscava uma alma que merecesse participar no universo.

Depois de nove ou dez noites, compreendeu, com certa amargura, que não podia esperar nada daqueles alunos que, passivamente, aceitavam a sua doutrina, mas sim daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição, não podiam ascender a indivíduos; os últimos preexistiam um pouco mais. Uma tarde (agora também as tardes eram tributáveis do sonho, agora velava apenas algumas horas no amanhecer) demitiu para sempre o vasto colégio ilusório e ficou com um só aluno. Era um rapaz taciturno, citrino, indócil às vezes, de feições afiladas, repetindo as do seu sonhador. A brusca eliminação dos seus co-discípulos não o desconcertou por muito tempo; o seu progresso, ao fim de poucas lições particulares, pôde maravilhar o mestre. Não obstante, sobreveio a catástrofe. O homem, um dia, emergiu do sono como de um deserto viscoso, olhou a luz vã da tarde que, à primeira vista, confundiu com a aurora, e compreendeu que não sonhara. Toda essa noite e todo o dia, contra ele se abateu a intolerável lucidez da insónia. Quis explorar a selva, extenuar-se; somente alcançou entre a cicuta aragens de sonho débil, listradas fugazmente de visões de tipo rudimentar: inaproveitáveis. Quis congregar o colégio, e mal havia articulado algumas breves palavras de exortação, este deformou-se, apagou-se. Na quase perpétua vigília, lágrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos.

Compreendeu que o empenho de modelar a matéria incoerente e vertiginosa de que se compõem os sonhos é o trabalho mais árduo que pode empreender um homem, ainda que penetre todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais árduo que tecer uma corda de areia ou amoedar o vento sem efígie. Compreendeu que um fracasso inicial era inevitável. Prometeu esquecer a enorme alucinação que no começo o desviara e buscou outro método de trabalho. Antes de o exercitar, dedicou um mês à recuperação das forças que o delírio havia exaurido. Abandonou toda a premeditação de sonhar e quase imediatamente conseguiu dormir uma razoável parte do dia. As raras vezes que sonhou, durante esse período, não reparou nos sonhos. Para reatar a tarefa, esperou que o disco da Lua fosse perfeito. À tarde, purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetários, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e dormiu. Quase subitamente, sonhou com um coração que pulsava.

Sonhou-o activo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, cor grená na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto ou sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante catorze lúcidas noites. Cada noite, percebia-o com maior evidência. Não o tocava: limitava-se a testemunhá-lo, a observá-lo, talvez a corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distâncias e ângulos. Na décima quarta noite, roçou a artéria pulmonar com o indicador e depois todo o coração, por fora e por dentro. O exame satisfê-lo. Deliberadamente não sonhou durante uma noite: então retomou o coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outro dos principais órgãos. Antes de um ano chegou ao esqueleto, às pálpebras. O pêlo inumerável foi talvez a tarefa mais difícil. Sonhou um homem inteiro, um moço, mas este não se incorporava nem falava, nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhava-o adormecido.

Nas cosmogonias gnósticas, os demiurgos amassam um vermelho Adão que não consegue pôr-se de pé; tão inábil e tosco e elementar como esse Adão de pó era o Adão "de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde, o homem quase destruiu toda a sua obra, mas arrependeu-se. (Mais lhe valia tê-la destruído.) Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, arrojou-se aos pés da efígie que talvez fosse um tigre e ta1vez um potro, e implorou o seu desconhecido socorro. Nesse crepúsculo, sonhou com a estátua. Sonhou-a viva, trémula: não era um bastardo atroz de tigre e potro, mas simultaneamente essas duas criaturas veementes e também um touro, uma rosa, uma tempestade. Esse múltiplo deus revelou-lhe que o seu nome terrenal era Fogo, que nesse templo circular (e noutros iguais) lhe prestavam sacrifícios e culto e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de tal sorte que todas as criaturas, excepto o próprio Fogo e o sonhador, o julgassem um homem de carne e osso. Ordenou-lhe que, uma vez instruído nos ritos, o remetesse ao outro templo derruído, cujas pirâmides persistem abaixo, para que alguma voz o glorificasse naquele edifício deserto. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.

O mago executou essas ordens. Consagrou um prazo (que finalmente abrangeu dois anos) para lhe desvendar os arcanos do universo e do culto do fogo. Intimamente, doía-lhe separar-se dele. Com o pretexto da necessidade pedagógica, dilatava diariamente as horas dedicadas ao sonho. Também refez o ombro direito, talvez deficiente. As vezes, inquietava-o uma impressão de que tudo isso havia acontecido... Em geral, os seus dias eram felizes; ao fechar os olhos pensava: Agora estarei com o meu filho. Ou, mais raramente: O filho que gerei espera-me e não existirá se eu não for.

Gradualmente, habituou-o à realidade. Uma vez determinou-lhe que embandeirasse um cume longínquo. No outro dia, flamejava a bandeira no cimo. Esboçou outras experiências análogas, cada vez mais audazes. Compreendeu com certo desgosto que o seu filho estava pronto para nascer - e talvez impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez e enviou-o ao outro templo cujos despojos branqueiam rio abaixo, a muitas léguas da inextricável selva e pântano. Antes (para que nunca soubesse que era um fantasma, para que se acreditasse um homem como os outros) infundia-lhe o esquecimento total dos seus anos de aprendiz.
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A sua vitória e a sua paz ficaram embaciadas de fastio. Nos crepúsculos do entardecer e da aurora, prostrava-se diante da figura de pedra, talvez imaginando que o seu filho irreal praticasse idênticos ritos, noutras ruínas circulares, água abaixo: de noite, não sonhava, ou sonhava como fazem todos os homens. Percebia com certa palidez os sons e forma do universo: o filho ausente nutria-se dessas diminuições da sua alma. O propósito da sua vida fora atingido: o homem persistiu numa espécie de êxtase. No fim de um tempo que certos narradores da sua história preferem computar em anos e outros em lustros, dois remadores o despertaram, à meia-noite: não pôde ver os seus rostos, mas falaram-lhe de um homem mágico, num templo do Norte, capaz de tocar o fogo e não se queimar. O mago lembrou-se bruscamente das palavras do deus. Recordou que de todas as criaturas que constituem o orbe, o fogo era o único que sabia que o seu filho era um fantasma. Essa lembrança, apaziguadora a princípio, acabou por atormentá-lo. Temeu que o seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de qualquer maneira a sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projecção ao sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todos os pais interessam os filhos que procriaram (que permitiram) numa simples confusão ou felicidade: é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado entranha por entranha e traço por traço, em mil e uma noites secretas.

O fim dos seus sofismas foi brusco, mas alguns sinais o anunciaram. Primeiro (ao cabo de uma longa seca) uma remota nuvem numa colina, leve como um pássaro; então, para sul, o céu que tinha a cor rosa da gengiva dos leopardos; depois as fumaradas que enfermam o metal das noites; depois a fuga pânica das bestas. Porque se repetiu o que acontecera há muitos séculos. As ruínas do santuário do deus do fogo foram destruídas pelo fogo. Numa alvorada sem pássaros, o mago viu cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas em seguida compreendeu que a morte vinha coroar a sua velhice e absolvê-lo dos trabalhos. Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam a sua carne, antes o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava a sonhar.
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Jorge Luís Borges
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Dedico-lhe por fim, Sr. Naipaul, estes versos de Borges, o cego que tudo viu, conheceu e predisse:
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Sou o que não conhece outro consolo
Salvo o de recordar o feliz tempo.
Sou por vezes a sorte imerecida.
Sou o que sabe que é apenas eco,
Esse que quer morrer inteiramente.
Talvez eu seja aquele que és nos sonhos.
Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare.
Sou o que sobrevive hoje aos cobardes
E aos fátuos que existiram.
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(poema na íntegra aqui)
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Estamos entendidos, Sr. Naipaul?

4 comentários:

brisadomar disse...

Apoiado!

Ana Cristina Leonardo disse...

Não conheço assim tão bem a escrita do Naipul, mas conheço Borges. E as declarações são um total disparate. Faz-me lembrar uma vez que entrevistei o Sepúlveda, e o tonto me disse que achava muito bem que Borges nunca tivesse ganho o Nobel porque, afinal, eele screvia sempre o mesmo livro. Há declarações muito infelizes (A Curva do Rio não deixa de ser um grande livro).

sem-se-ver disse...

brisa,
podes crer. que grande imbecil.

sem-se-ver disse...

pois, ana cristina, tal como homero, dante e outros assim, não é?

(são tão infelizes por vezes, caramba)

obg pela visita, e pela dica, que seguirei.

abraço